Controle social no Terceiro Setor: o que as fundações ensinam sobre governança

Nos últimos dez anos, as fundações brasileiras deram um salto na forma como pensam sua própria governança. De estruturas concentradas nas mãos de poucos fundadores ou mantenedores, muitas passaram a experimentar modelos participativos, transparentes e multissetoriais, capazes de equilibrar representatividade social, gestão profissional e responsabilidade pública.

Essas mudanças não são apenas simbólicas: elas estão registradas nos estatutos, formalizadas em conselhos com assentos reservados para comunidade, órgãos públicos, academia e sociedade civil. O resultado é uma nova geração de fundações que aliam propósito social e excelência administrativa — e que podem servir de referência para o controle social no Terceiro Setor.

A seguir, analisamos casos emblemáticos de experiências pioneiras em governança no país e no exterior.

Por que falar de governança no Terceiro Setor

Quando se fala em “governança”, é comum pensar apenas em empresas ou órgãos públicos. Mas a governança no Terceiro Setor é a espinha dorsal da confiança pública. Ela define quem toma as decisões, como o dinheiro é aplicado e de que forma a organização presta contas à sociedade e aos financiadores.

A boa governança combina transparência, participação e accountability (prestação de contas). No Brasil, a Lei nº 13.019/2014, o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil reforça esses princípios exigindo que as OSCs mantenham clareza em suas estruturas decisórias e instrumentos de controle social no Terceiro Setor.

As inovações que veremos a seguir mostram como esses princípios saíram do papel e viraram prática institucional.

FAS: quando a governança é um pacto social pela Amazônia

A Fundação Amazonas Sustentável (FAS) é um dos exemplos mais sólidos de governança democrática no Brasil.

Criada em 2008, a FAS nasceu como uma parceria entre o Banco Bradesco e o Governo do Amazonas, mas desde o início incorporou em seu estatuto um Conselho de Administração multissetorial, com representantes de diferentes áreas: poder público, setor empresarial, sociedade civil, comunidades ribeirinhas e o meio acadêmico.

Esse formato plural ajuda a considerar múltiplas perspectivas no momento de tomar decisões estratégicas. A FAS também possui Conselho Fiscal e Conselho Consultivo independentes, reforçando mecanismos de auditoria e supervisão.

A FAS afirma ainda que pratica transparência ativa. Seu portal online publica relatórios financeiros auditados, atas de reuniões e dados de projetos, cumprindo integralmente a Lei de Acesso à Informação e as exigências do Ministério Público do Amazonas.

Em outras palavras, a FAS propõe a transformação da governança em ferramenta de confiança pública. Ao institucionalizar a participação de beneficiários e a divulgação proativa de informações, a fundação consolidou um modelo que alia legitimidade social e eficiência técnica — algo essencial para organizações que dependem de credibilidade junto a parceiros nacionais e internacionais.

Fundação Setúbal: o olhar corporativo aplicado à filantropia familiar

A Fundação José Luiz Egydio Setúbal (FJLES), mantenedora do Hospital Infantil Sabará e do Instituto PENSI, inovou ao aplicar os padrões de governança corporativa dentro de uma fundação de origem familiar.

O estatuto da FJLES determina que o Conselho Superior, seu órgão máximo, seja composto por 50% de membros da família e 50% de conselheiros independentes externos. Essa decisão, formalizada no estatuto desde 2010, trouxe pluralidade e isenção para dentro da instituição, reduzindo conflitos de interesse e fortalecendo a profissionalização da gestão.

Outro ponto importante é a proibição estatutária de que conselheiros exerçam cargos executivos, o que garante a separação entre gestão estratégica e operacional. Além disso, a fundação mantém um Conselho Fiscal autônomo e um corpo diretivo profissionalizado, medidas que reforçam a transparência e a continuidade administrativa.

Essa estrutura híbrida (familiar e técnica) tornou-se referência para outras fundações privadas no Brasil que buscam construir uma governança que combine valores afetivos e práticas corporativas, alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

FESF-SUS e FeSaúde: governança pública com controle social

A Fundação Estatal Saúde da Família (FESF-SUS), criada em 2009 na Bahia, e a Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FeSaúde), instituída em 2015, são exemplos de como o modelo público-participativo pode funcionar com eficiência.

Na FESF-SUS, o Conselho Curador é o órgão máximo de decisão e reflete a pluralidade do Sistema Único de Saúde (SUS): representantes de secretarias municipais, da Secretaria de Estado da Saúde, dos conselhos de saúde, sindicatos, trabalhadores e instituições de ensino têm assento garantido no estatuto.

Essa composição multissetorial permite que gestores públicos, profissionais e usuários decidam juntos os rumos da fundação, uma inovação em relação ao modelo tradicional de fundações estatais, em que o controle ficava restrito ao governo.

A FESF-SUS também se destaca pela exigência legal de prestar contas aos municípios consorciados e aos conselhos de saúde, o que legitima sua atuação e amplia aa experiências de controle social no Terceiro Setor.

Inspirada nesse modelo, a FeSaúde, em Niterói, replicou o desenho participativo e introduziu um diferencial tecnológico:  seu estatuto prevê uma Diretoria de Inovação e Tecnologia, que usa portais digitais e sistemas de monitoramento para publicar metas, indicadores e resultados em tempo real.

Esses modelos de governança demonstram que gestão pública e transparência podem caminhar lado a lado. A governança compartilhada, aliada ao uso de tecnologia, cria organizações públicas mais ágeis, auditáveis e conectadas com a sociedade.

Fundação Renova: obrigada a garantir participação social em meio à reparação de desastres

Talvez nenhum caso recente simbolize tanto o desafio da governança com accountability quanto o da Fundação Renova, responsável por conduzir a reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Mariana (MG) em 2015.

A Fundação foi criada por mineradoras devido a obrigação legal de se responsabilizar pelo desastre ambiental que levou à morte de dezenas de pessoas e destruição do meio ambiente. Após críticas de falta de transparência e controle social, a Fundação foi obrigada a reformular sua estrutura.

O ponto de virada foi o TAC Governança, feito por pressão dos movimentos de luta organizada, assim como pela intermediação do Ministério Público e da Defensoria Pública, que alterou o estatuto da Renova.

Desde então, o Conselho Curador da Fundação passou a incluir:

  • 2 membros efetivos e 2 membros suplentes indicados pela Articulação das Câmaras Regionais entre os atingidos ou técnicos por eles escolhidos;
  • 1 membro efetivo e 1 membro suplente indicados pelo Comitê Interfederativo;
  • 6 membros efetivos e 6 membros suplentes indicados pelas empresas mantenedoras.

Foi também criado um Conselho Consultivo formado majoritariamente por atingidos, além da previsão estatutária de observadores permanentes do Ministério Público e da Defensoria Pública nas reuniões decisórias, contando com:

  • 4 representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce;
  • 7 representantes de atingidos indicados pelas comissões locais;
  • 2 representantes de ONGs ligadas à vida marinha e a direitos ambientais indicados, respectivamente, pelo CIF e pelo MP;
  • 3 representantes de instituição acadêmica indicados, respectivamente, por Fundação Renova, CIF e MP;
  • 1 representante de entidade atuante em desenvolvimento econômico indicado pela Fundação Renova;
  • 2 membros de ONGs atuantes em direitos humanos indicados por MP e Defensoria.


Esse modelo é inédito no Brasil: pela primeira vez, as vítimas diretas de um desastre socioambiental passaram a ter voz e voto nas decisões sobre sua própria reparação.

A Renova ainda opera com forte base tecnológica: mantém um Portal da Transparência que divulga dados financeiros, contratos e cronogramas de execução, acompanhados por mais de 70 entidades e órgãos fiscalizadores.

O que o Brasil pode aprender com experiências internacionais

A Wikimedia Foundation, mantenedora da Wikipédia, consagrou em seus estatutos (bylaws) um equilíbrio obrigatório de poder entre os curadores eleitos pela comunidade e os nomeados pelo próprio board. As eleições ocorrem online, por meio do sistema SecurePoll, com auditoria independente e publicação integral dos resultados. Isso cria uma governança digital auditável, que combina tecnologia e democracia participativa.

Já o Equality Fund, fundo global de filantropia feminista, foi criado a partir de uma parceria público-privada. Seu conselho diretor reserva assentos formais para representantes das organizações beneficiadas, garantindo que mulheres e pessoas LGBTQIA+ de diferentes regiões do mundo participem das decisões estratégicas.

Esse modelo feminista de governança rompe com a lógica tradicional da filantropia e formaliza a liderança dos próprios beneficiários.

As novas tendências de controle social no Terceiro Setor

Com base nas práticas mapeadas na pesquisa, é possível identificar cinco tendências claras que definem o futuro da governança no setor:

1. Participação social vinculante: inserção nos estatutos a obrigação de incluir representantes da sociedade civil e dos beneficiários nos conselhos deliberativos. Isso evita que a participação seja apenas consultiva e transforma o controle social em parte da estrutura legal da organização.

2. Representatividade real e diversidade: abrir espaço para conselheiros independentes e membros de grupos historicamente excluídos melhora a qualidade das decisões e aumenta a legitimidade das instituições.

3. Tecnologia a serviço da transparência: Portais públicos de dados, sistemas de gestão online e ferramentas de votação eletrônica fortalecem a governança digital, permitindo acompanhamento em tempo real e auditoria por qualquer cidadão.

4. Aprofundamento democrático: A tendência global é que decisões antes concentradas em poucos dirigentes passem a ser compartilhadas com conselhos comunitários ou comitês eleitos.

5. Prestação de contas e comunicação aberta: A transparência deixou de ser apenas publicar relatórios: agora envolve explicar processos, abrir dados e dialogar com a sociedade.

Governar é também compartilhar poder

A década de 2015 a 2025 marcou uma virada silenciosa, mas profunda, no modo de entende a palavra “governança” e controle social no Terceiro Setor. Se antes ela era sinônimo de limitação, hoje passou a significar compartilhamento, confiança e corresponsabilidade.

Fundações como a FAS, a FJLES, a FESF-SUS e a Renova mostram que o Brasil está produzindo soluções próprias de governança participativa, que dialogam com experiências internacionais e apontam um caminho para o futuro: organizações abertas, plurais e tecnologicamente transparentes.

A inovação, nesse contexto, não está apenas na tecnologia ou na estrutura jurídica, mas na coragem de dividir o poder de decidir — e essa é a essência de toda boa governança.

O papel da VRP na construção de um controle social inovador

Com base nos exemplos mapeados pela pesquisa, é possível afirmar que a governança é o próximo grande diferencial competitivo das organizações sociais. Instituições com processos transparentes, colegiados diversos e canais permanentes de escuta tendem a captar mais recursos e firmar parcerias de longo prazo que ampliem o controle social no Terceiro Setor.

A VRP Advocacia e Consultoria atua ao lado de fundações e organizações do que desejam evoluir seus modelos de gestão, adaptando estatutos, políticas internas e processos à legislação e às melhores práticas nacionais e internacionais.

Entre as soluções que a VRP tem implementado estão:

  • revisão de estatutos sociais para inclusão de conselhos multissetoriais;
  • elaboração de políticas de integridade e compliance;
  • implantação de programas de transparência ativa e uso de tecnologia para prestação de contas;
  • capacitação de conselheiros e dirigentes sobre deveres fiduciários e responsabilidade institucional.

A experiência do escritório mostra que inovar na governança não significa aumentar a burocracia, mas sim criar estruturas que previnam riscos e fortaleçam a reputação institucional. Entre em contato com nossa equipe e descubra como construir soluções jurídicas que reforcem a confiança da sua organização.

Gustavo Marques Pessali - Advogado Sênior e Sócio Fundador

Gustavo Pessali

Advogado Especialista em Terceiro Setor

Advogado mestre pela UFMG com ênfase em Direitos Humanos (França e Argentina). Atuou na Comissão Interamericana de Direitos Humanos e é advogado e consultor há mais de 10 anos, com passagem por assessoria parlamentar e atuação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF). Especialista em Terceiro Setor, assessora fundações e associações com foco em governança, Marco Regulatório do Terceiro Setor (MROSC), captação de recursos e prestação de contas junto a órgãos de controle, como Tribunais de Contas.

OAB/MG n. 162.960