PONTOS PRINCIPAIS
- Dívida trabalhista de ONG não é automaticamente uma dívida do dirigente.
- Para cobrar o gestor pessoalmente, é preciso provar fraude ou má-fé, dificuldade financeira não basta.
- Misturar as contas da entidade com as pessoais é um dos maiores riscos para o dirigente.
- Primeiro a Justiça tenta cobrar da OSC, só depois pode vir atrás do gestor.
- Organização, transparência e separação de contas protegem o patrimônio pessoal de quem dirige.
O gestor de organizações do Terceiro Setor convive diariamente com um paradoxo: ao mesmo tempo em que lida com orçamentos minguados e parcerias públicas burocráticas, carrega nos ombros uma responsabilidade jurídica que, se mal gerida (ou mal compreendida pelo Judiciário), pode arruinar seu patrimônio familiar construído ao longo de décadas.
A angústia é real. Não são raros os casos em que, após o encerramento de um projeto ou a frustração de um repasse governamental, o dirigente se vê surpreendido por um bloqueio judicial em sua conta bancária pessoal devido a uma reclamação trabalhista da qual a entidade não conseguiu se defender. O Estado muitas vezes ignora a natureza altruísta dessas instituições, tratando o diretor voluntário como se fosse um sócio de uma multinacional visando o lucro.
Neste artigo, vamos desmistificar os limites da responsabilidade pessoal de dirigentes com relação a dívida trabalhista da ONG. É preciso entender que a autonomia patrimonial da Organização da Sociedade Civil (OSC) não é um favor, mas um direito garantido pelo Código Civil, e que a sua quebra exige provas robustas, não apenas a mera falta de dinheiro em caixa.

O escudo da personalidade jurídica e o Marco Regulatório (MROSC)
As OSCs, sejam elas associações ou fundações, gozam de personalidade jurídica própria, conforme estabelece o Código Civil. Na prática, isso significa que a entidade é um sujeito de direitos e obrigações totalmente distinto das pessoas que a administram. Essa separação patrimonial não é um mero detalhe burocrático, é a garantia de que o dirigente possa exercer sua função em prol do interesse social sem colocar em risco o teto de sua própria família.
O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Lei 13.019/2014) reforça essa estrutura ao definir a figura do dirigente como aquele que detém poderes de gestão e controle. O ponto fundamental é que, diferentemente de uma empresa comercial, os diretores e conselheiros de uma OSC não são “donos” da instituição. Eles não se beneficiam de lucros ou dividendos, o que torna juridicamente injusto exigir deles o mesmo nível de responsabilidade patrimonial imposto a sócios de sociedades limitadas ou acionistas de SAs.
Quando os bens do gestor podem ser atingidos
Embora a regra seja a autonomia, o Direito Brasileiro prevê janelas de exceção onde esse escudo é rompido. O Código Civil é o principal instrumento utilizado pelo Judiciário para atingir os bens particulares dos administradores. Contudo, é vital que o gestor saiba que essa medida é excepcional e exige pressupostos específicos:
- Desvio de finalidade: quando a entidade é utilizada para objetivos estranhos àqueles previstos em seu estatuto social.
- Confusão patrimonial: a inexistência de uma separação explícita entre as contas da OSC e as finanças pessoais do dirigente, como o pagamento de boletos particulares com dinheiro da instituição.
- Fraude: o uso da personalidade jurídica como “fachada” para lesar terceiros ou ocultar patrimônio.
Na esfera trabalhista, o cenário costuma ser mais direto. Em determinadas situações, a falta de bens para pagar a dívida trabalhista de ONG basta para redirecionar a execução contra o dirigente. Entretanto, para o Terceiro Setor, a defesa técnica deve ser implacável em demonstrar que essa teoria é incompatível com entidades sem fins lucrativos, exigindo-se sempre a prova do abuso ou do ato ilícito para justificar qualquer penhora no CPF do gestor.
O que os tribunais têm decidido sobre a responsabilidade do dirigente de OSC
Diferente do que ocorre no direito comercial comum, a Justiça do Trabalho tem começado a consolidar o entendimento de que não se pode assumir automaticamente que o dirigente da OSC é responsável. Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) proferiu uma decisão emblemática que traz um alento aos gestores do Terceiro Setor. No julgamento do Processo 100039-53.2019.5.01.0206, a Corte reformou uma decisão que pretendia atingir o patrimônio de ex-conselheiros de uma fundação privada.
Neste caso, a Corte entendeu que não se pode responsabilizar indivíduos que participaram apenas do ato de criação da entidade, décadas atrás, e não exerceram atos diretos de gestão ou aprovação de contas no período da irregularidade. Esse precedente é uma vitória contra a “penhora cega”, que muitas vezes tenta alcançar qualquer nome presente em atas de assembleia, ignorando quem efetivamente tomou as decisões financeiras que geraram o passivo trabalhista.
A Justiça tem sido rigorosa com quem está à frente da gestão quando ocorrem irregularidades graves. O motivo é que a proteção do patrimônio pessoal não é um “cheque em branco” e pode ser derrubada se houver indícios de má gestão.
Um alerta importante veio no processo AIRR 1001795-60.2017.5.02.0612, onde ficou demonstrada a inadimplência sistemática de encargos trabalhistas, interpretado como um abuso da personalidade jurídica. Nesse caso, o Tribunal entendeu que o presidente de uma OSCIP(Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) pode, sim, ser obrigado a pagar dívida trabalhista de ONG com seu próprio dinheiro.
Para o juiz atacar os bens do presidente, ele precisa confirmar que houve algo mais grave que uma simples crise financeira, como o uso da entidade para esconder patrimônio ou o desvio de recursos para finalidades alheias ao estatuto. Na prática, se a gestão for honesta, documentada e transparente, o risco de o dirigente pagar a conta sozinho diminui drasticamente.
Mas atenção: isso não acontece só porque a conta da instituição ficou no vermelho. Para o juiz “atacar” os bens do presidente, ele precisa confirmar que houve algo mais grave, como o uso da entidade para esconder patrimônio ou o desvio do dinheiro para fins que não têm nada a ver com o objetivo social da organização. Na prática, se a gestão for honesta e transparente, o risco de o dirigente pagar a conta sozinho diminui drasticamente.
Responsabilidade subsidiária vs. solidária
Entender a diferença entre esses dois termos é o que separa uma noite de sono tranquila de um pesadelo jurídico:
- Responsabilidade subsidiária (a regra): o dirigente só pode ser chamado a pagar a dívida trabalhista de ONG após esgotadas todas as tentativas de execução contra o patrimônio da própria entidade. É o chamado benefício de ordem.
- Responsabilidade Solidária (a exceção): ocorre quando o gestor participa direta e dolosamente de um ato ilícito ou fraude. Nesse caso, o trabalhador pode exigir o pagamento diretamente do dirigente, sem precisar “esperar” o fim dos bens da entidade.
A tendência dos tribunais é aplicar a responsabilidade subsidiária, exigindo que quem cobra prove que a OSC não possui bens, mas que o dirigente agiu com má-fé ou fraude para que a execução avance sobre seu CPF. A simples falta de dinheiro em caixa por dificuldades financeiras do setor não deveria, por si só, autorizar essa invasão patrimonial.
Estrutura de defesa: Boas práticas
Para afastar o risco de uma execução no CPF, o dirigente deve implementar as seguintes práticas:
- Separação patrimonial rigorosa: jamais misturar contas pessoais com as da entidade. O pagamento de despesas privadas com recursos da OSC é a prova cabal de confusão patrimonial.
- Transparência e prestação de contas: manter a escrituração contábil em dia e submetê-la aos conselhos fiscais e, se possível, a auditorias externas. Isso comprova que os recursos foram aplicados na finalidade estatutária.
- Gestão de riscos e treinamento: investir em capacitação jurídica para os dirigentes que, muitas vezes, não possuem formação na área e ignoram os riscos das decisões administrativas.
- Políticas de ética e conduta: implementar mecanismos de prevenção ao assédio e discriminação, criando um ambiente de trabalho saudável que reduz drasticamente o contencioso trabalhista.
A gestão segura como direito
Assumir a direção no Terceiro Setor é uma missão nobre, mas que exige cautela jurídica. A lei brasileira protege o dirigente que atua de forma regular, mantendo seus bens pessoais separados da dívida trabalhaista da ONG.
Quem segue o estatuto, presta contas com transparência e adota boas práticas de governança reduz drasticamente o risco de ter o CPF atingido por execuções judiciais. Por outro lado, o uso ilícito da entidade, a mistura de contas (confusão patrimonial) ou o desvio de finalidade podem levar ao bloqueio de bens e sanções severas nas esferas trabalhista, civil e até criminal.
Na VRP Advocacia e Consultoria, acreditamos que a segurança jurídica é a base para sua organização prosperar. Oferecemos assessoria completa para estruturar estatutos, revisar a governança e defender dirigentes em processos judiciais. Entre em contato conosco para saber mais.
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Perguntas frequentes
Não. A responsabilidade pessoal por dívida trabalhista de ONG é uma exceção e só ocorre em casos comprovados de fraude, abuso da personalidade jurídica, desvio de finalidade ou confusão patrimonial, conforme o Código Civil.
Não. A simples falta de pagamento, decorrente de dificuldades financeiras da entidade, não autoriza a desconsideração da personalidade jurídica sem a demonstração de dolo ou má-fé do gestor.
Subsidiária (a regra): você só paga se a OSC não tiver mais nenhum bem ou dinheiro. Existe uma “fila” e a organização está na frente.
Solidária (a exceção): não existe fila. A cobrança pode ser feita diretamente de você ou da entidade ao mesmo tempo. Isso só ocorre se ficar provado que você participou de uma fraude ou agiu com má-fé.
Sim. Se ficar comprovado que o ato ilícito ou a fraude foi praticada durante o seu período de gestão e gerou prejuízos trabalhistas, a responsabilização pode ser buscada mesmo após a sua saída da função.
A adoção de boas práticas de governança, manutenção de escrituração contábil regular, separação rígida entre bens da entidade e dos sócios, implementação de compliance interno e assessoria jurídica especializada são os melhores meios de afastar riscos.
