O papel do Terceiro Setor na promoção de Direitos Humanos

O Terceiro Setor tem um papel importante na consolidação da democracia e na promoção de Direitos Humanos no Brasil. Em um país marcado por desigualdades históricas, as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) atuam como pontes entre o Estado e a população, transformando demandas sociais em ações concretas que garantem dignidade, justiça e inclusão.

Cito, por exemplo, instituições como o Instituto Sou da Paz, que atua na busca de soluções democráticas e pacíficas para quem sofre com a violência; o Nossas, que faz campanhas e mobilizações para que os direitos humanos sejam respeitados e protegidos; ou ainda a Fundação Memorial Brumadinho, que busca cuidar com dignidade da memória das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho (MG). Todas elas demonstram, na prática, o potencial do Terceiro Setor de assumir interesses públicos e promover o acesso a direitos fundamentais.

E para que a atuação das OSCs seja efetiva e sustentável, é necessário compreender como o Terceiro Setor contribui juridicamente e institucionalmente para a promoção dos Direitos Humanos, e como a boa governança e o assessoramento jurídico adequado fortalecem esse papel transformador.

A experiência que faz a diferença

Falo sobre esse tema com a convicção de quem o vivencia há anos. Tive a oportunidade de atuar como mediadora de conflitos, tanto a partir da perspectiva comunitária quanto individual, em vilas e favelas de Belo Horizonte (MG), coordenando uma equipe multidisciplinar e acompanhando de perto a realidade de famílias e lideranças locais que buscam soluções pacíficas para seus desafios cotidianos.

Também trabalhei com educação para direitos humanos, como supervisora de curso em programas de educação à distância da UFMG, e fui pesquisadora da Comissão da Verdade em Minas Gerais, onde aprofundei meu olhar sobre a memória, a justiça e a reparação.

Essas experiências me mostraram que a promoção de Direitos Humanos não é apenas uma tarefa jurídica ou institucional, é um compromisso ético com a escuta, o diálogo e a dignidade humana.

O Terceiro Setor como agente de efetivação de direitos

As Organizações do Terceiro Setor desempenham funções que o Estado muitas vezes não consegue suprir, atuando em áreas como educação, cultura, saúde, habitação adequada, meio ambiente, igualdade racial e de gênero, acessibilidade, entre outras.

Essas entidades não apenas prestam serviços, mas influenciam políticas públicas e fortalecem o controle social, pilares importantes para garantir a consolidação dos Direitos Humanos.

Por exemplo: uma associação comunitária que promove oficinas de formação profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade está, na prática, buscando garantir o direito ao trabalho e à autonomia econômica dessas mulheres. Da mesma forma, uma fundação que oferece apoio jurídico gratuito a vítimas de discriminação contribui para a efetivação do direito à igualdade.

Por meio da minha vivência com mediação de conflitos e educação em Direitos Humanos, percebo que o Terceiro Setor tem um papel importante no acolhimento e transformação simbólica da realidade, o que se traduz em mudança social concreta. A mediação, nesse contexto, é mais do que um instrumento de resolução de disputas: é uma forma de reconstruir vínculos e fortalecer comunidades.

Além das ações diretas, o terceiro setor também é capaz de incidir politicamente, participando de conselhos, audiências públicas e redes de advocacy, ampliando o alcance e a legitimidade das demandas sociais.

Desafios jurídicos e institucionais na promoção de Direitos Humanos

Apesar da relevância de sua atuação, a maioria das organizações enfrenta desafios complexos, muitos deles de natureza jurídica e administrativa. A sustentabilidade das OSCs depende de sua capacidade de cumprir exigências legais, captar recursos públicos e privados, prestar contas com transparência e manter uma gestão responsável dos recursos.

Entre os desafios mais comuns estão:

  • Gestão de recursos e prestação de contas: o uso inadequado de verbas públicas ou privadas, mesmo que por falhas administrativas, pode resultar em responsabilização e perda de credibilidade. Uma fundação que não documenta corretamente despesas de um projeto cultural financiado por um edital corre o risco de ter o repasse suspenso e ser obrigada a devolver valores.

  • Proteção de dados e direitos de imagem: a coleta de informações pessoais de beneficiários exige atenção às normas da LGPD e à ética no tratamento de dados sensíveis. Por exemplo, uma organização que realiza pesquisas com populações vulneráveis precisa garantir consentimento formal e anonimização dos dados para evitar violação de direitos.

A assessoria jurídica especializada é fundamental para orientar as organizações na prevenção desses riscos e para estruturar mecanismos de integridade, garantindo que a promoção de Direitos Humanos seja também uma prática juridicamente segura.

Fortalecendo a governança para ampliar o impacto social

O fortalecimento institucional é o caminho mais eficaz para que as OSCs ampliem seu impacto e assegurem a continuidade de suas ações de promoção de Direitos Humanos. Isso passa por três dimensões principais:

  • Governança participativa: garantir diversidade e representatividade nos espaços de decisão, com conselhos atuantes e processos transparentes. Um exemplo seria uma associação ambiental que cria um conselho consultivo com participação de lideranças indígenas e quilombolas, ampliando a legitimidade de suas decisões.

  • Planejamento estratégico e jurídico: alinhar os objetivos sociais à estrutura legal e administrativa da organização. Organizações que incluem sua missão principal como finalidade fortalecem sua identidade, possibilitando parcerias mais coerentes.

  • Cultura de compliance e integridade: estabelecer códigos de conduta, políticas de prevenção de assédio e canais de denúncia reforça o compromisso com os princípios dos Direitos Humanos. Uma OSC que cria uma política de diversidade e inclusão que também se reflete em seus contratos e processos seletivos, promove coerência entre discurso e prática.

Essas medidas aumentam a confiança de financiadores, parceiros e comunidades, permitindo que as organizações do Terceiro Setor continuem a desempenhar seu papel de agentes de transformação social com legitimidade e segurança.

Assessoria jurídica para organizações que promovem Direitos Humanos

O Terceiro Setor é protagonista na promoção de Direitos Humanos porque atua onde o Estado nem sempre chega e porque oferece soluções inovadoras, participativas e solidárias. No entanto, para que essa atuação tenha continuidade e credibilidade, é indispensável profissionalizar a gestão e investir em segurança jurídica.

Com o suporte adequado, as organizações podem ampliar seu alcance, consolidar parcerias estratégicas e seguir transformando realidades com ética, eficiência e responsabilidade.

A VRP Advocacia e Consultoria oferece assessoria jurídica especializada para organizações da sociedade civil comprometidas com a defesa e a promoção de Direitos Humanos. Atuamos na estruturação jurídica, elaboração de políticas internas, conformidade com o MROSC e a LGPD, e prevenção de riscos institucionais, fortalecendo a atuação social das entidades.

Entre em contato conosco para conhecer como a assessoria jurídica preventiva pode fortalecer a sua causa e garantir que sua atuação em prol dos Direitos Humanos seja cada vez mais sólida e sustentável.

Mariane Reis Cruz - Advogada Sênior e Sócia Fundadora

Mariane Reis

Advogada Especialista em Terceiro Setor

Mestra e bacharela em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com formação complementar em Direito e Políticas Públicas pela Université de Lille, na França, e Humanidades pela Universidad de la República, no Uruguai. Advogada há quase 15 anos, especializou-se nos últimos anos no assessoramento jurídico a organizações do Terceiro Setor, com ênfase em governança, compliance, gênero e direitos humanos.

OAB/MG n. 151460 e OAB/DF n. 87.757